Eu estava desempregado, meio perdido na vida, com um diploma e uma profissão quase esquecidos na gaveta. Por culpa de todas as coisas boas vividas e ouvidas na faculdade, ainda me iludia com uma oportunidade como professor. Daí corri só um pouquinho atrás e consegui de supetão, numa manhã de sei lá que dia da semana, uma aula como eventual. Mais que isso, assumi do nada um buraco deixado por uma licença, não sei que licença, e me foram dadas duas sextas séries e uma oitava. Ficaria com elas por algumas semanas. Tremia de medo, e a secretária, minha vizinha!, me encorajando. Ela sorria demais, até hoje sorri, ô inveja!
Eis que fui lançado no meio de uma oitava série. Não sabia o que fazer, como acabar com aquele barulho, e como ser mil coisas que eu ainda não tinha sido. Uma memória inteira, naquela sala, me assustava. Até hoje sucumbo. Mas eu fui orientado a seguir o programa, um jornalzinho sem destino do Governo, com algumas lições a serem passadas praquela turma toda. Era aula de interpretação de texto, de Literatura, nem sei. Mas tinha um texto, um conto, que eu não conhecia, que eu tinha de dar e explicar e corrigir. Fiz o que dava pra fazer pra começar, deixei aquela turma lá, sentei e li.
Do medo pra uma tranquilidade, um suspiro. Se não estivesse em silêncio, abandonado e mal notado à minha mesa, teria embargado a voz, com certeza. Foi um estalo, um aperto, aquele texto me fez um chamego. Tanta pureza, tanta inocência, tanta simplicidade (a maior poesia é sempre a mais simples) que não cabia ali naquele espaço. Eu não me cabia. Senti ali naquele primeiro dia que ser professor valia a pena. Tendo força, valia sim. E que maravilha ser professor de Português, de Literatura, e ter poesia como instrumento de trabalho. Era muito, isto tinha muito significado. E, embora minha força não tenha sido grande, suficiente, nem tenha voltado (ou surgido), o conto ficou em mim até hoje. É palavra de acalmar tormenta, pausa nos nervos, de te dar um instantinho de alumbramento. E só ainda há pouco fui atrás do seu autor e do livro, que eu, desinformado, desatento, preguiçoso e quase burro, nem conhecia: Ivan Angelo, Pode me beijar se quiser. Com um título desses, só podia ser coisa boa e delicada. Quero pra mim, pra sempre. O texto:
Negócio de menino com menina
O menino, de uns dez anos, pés no chão, vinha andando pela estrada de terra da fazenda com a gaiola na mão. Sol forte de uma hora da tarde. A menina, de uns nove anos, ia de carro com o pai, novo dono da fazenda. Gente de São Paulo. Ela viu o passarinho na gaiola e pediu ao pai:
— Olha que lindo! Compra pra mim?
O homem parou o carro e chamou:
— Ô menino.
O menino voltou, chegou perto, carinha boa. Parou ao lado da janela da menina. O homem:
— Esse passarinho é para vender?
— Não senhor.
O pai olhou pra filha com uma cara de deixa pra lá. A filha pediu suave como se o pai tudo pudesse:
— Fala pra ele vender.
O pai, mais para atendê-la, apenas intermediário:
— Quanto você quer pelo passarinho?
— Não tou vendendo não senhor.
A menina ficou decepcionada e segredou:
— Ah, pai, compra.
Ela não considerava, ou não aprendera ainda, que negócio só se faz quando existe um vendedor e um comprador. No caso, faltava o vendedor. Mas o pai era um homem de negócios, águia da Bolsa, acostumado a encorajar os mais hesitantes ou a virar a cabeça dos mais recalcitrantes:
— Dou dez mil.
— Não senhor.
— Vinte mil.
—Vendo não.
O homem meteu a mão no bolso, tirou o dinheiro, mostrou três notas, irritado.
— Trinta mil.
— Não tou vendendo, não, senhor.
O homem resmungou “que menino chato” e falou pra filha:
— Ele não quer vender. Paciência.
A filha, baixinho, indiferente às possibilidades da transação:
— Mas eu queria. Olha que bonitinho.
O homem olhou a menina, a gaiola, a roupa encardida do menino, com um rasgo na manga, o rosto vermelho do sol.
— Deixa comigo.
Levantou-se, deu a volta, foi até lá. A menina procurava intimidade com o passarinho, dedinho nas gretas da gaiola. O homem maneiro, estudando o adversário:
— Qual é o nome deste passarinho?
— Ainda não botei nome nele, não. Peguei ele agora.
O homem quase impaciente:
— Não perguntei se ele é batizado não, menino. É pintassilgo, é sabiá, é o que?
— Aaaah. É bico-de-lacre.
A menina pela primeira vez, falou com o menino:
— Ele vai crescer?
O menino parou os olhos pretos nos azuis.
— Cresce nada. Ele é assim mesmo, pequenininho.
O homem:
— E canta?
— Canta nada. Só faz chiar assim.
— Passarinho besta, hein?
— É. Não presta pra nada, é só bonito.
— Você pegou ele dentro da fazenda?
— É. Aí no mato.
— Essa fazenda é minha. Tudo que tem nela é meu.
O menino segurou com mais força a alça da gaiola, ajudou com a outra mão nas grades. O homem achou que estava na hora e falou já botando a mão na gaiola, dinheiro na outra mão.
— Dou quarenta mil, pronto. Toma aqui.
— Não senhor, muito obrigado.
O homem, meio mandão:
— Vende isso logo, menino. Não tá vendo que é pra menina?
— Não, não tou vendendo não.
— Cinqüenta mil! Toma! – e puxou a gaiola.
Com cinqüenta mil se comprava um saco de feijão, ou dois pares de sapatos, ou uma bicicleta velha. O menino resistiu, segurando a gaiola, voz trêmula.
— Quero não senhor. Tou vendendo não.
— Não vende por quê, hein? Por quê?
O menino acuado, tentando explicar:
— É que eu demorei a manhã todinha pra pegar ele e tou com fome e com sede, queria ter ele mais um pouquinho . Mostrar pra mamãe.
O homem voltou para o carro, nervoso. Bateu a porta, culpando a filha pelo aborrecimento.
— Viu no que dá mexer com essa gente? É tudo ignorante, filha. Vam’bora.
O menino chegou pertinho da menina e falou baixo, só pra ela ouvir:
— Amanhã eu dou ele pra você.
Ela sorriu e compreendeu.










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